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07/11/16 17:24

EducarMais: Interseção de saberes na construção do conhecimento

Estudar, analisar e saber diferenciar são algumas das ações que contribuem para a participação efetiva do psicólogo no campo educacional.

Em um contexto escolar, onde os saberes se entrelaçam em busca de um objetivo comum, qual o papel da Psicologia enquanto ciência relacionada à Educação? De que maneira, efetivamente, pode contribuir um psicólogo na relação ensino-aprendizagem? Essas são respostas que a Psicologia busca na atuação do seu próprio fazer, em um movimento de reflexão e prática inseridas na instituição social escola. 

A Psicologia define seu espaço a partir de diferentes áreas de atuação e conhecimento. Uma dessas áreas está dedicada a olhar de maneira sensível e específica para o processo educativo e para os tantos fenômenos psicológicos que ali emergem, dentre eles a Psicologia Educacional. Diferententemente da Psicologia Escolar, que tem por função dedicar-se a uma única escola e suas relações institucionais, a Psicologia Educacional estuda a relação ensino-aprendizagem de maneira ampla. O trabalho do psicólogo no contexto da Educação acontece em interface com outros muitos saberes relacionados à construção do conhecimento por parte dos sujeitos. O processo educativo é sempre algo singular e próprio da necessidade que nós temos de nos adaptar ao meio e de sobreviver.

Enquanto prática, a Psicologia Educacional detém-se a estudar questões relacionadas ao processo educativo, tais como estratégias de ensino e de aprendizagem, o funcionamento da comunidade escolar como um todo, as dificuldades de aprendizagem e, de maneira mais aprofundada, a Psicologia do Desenvolvimento. Falar sobre a construção da cognição e de outros diferentes lados que nos fazem homens e mulheres inteiras é perceber que todos nós crescemos e nos desenvolvemos a partir de fases de maturação, processuais e gradativas, igualmente importantes e únicas, que nos constroem enquanto sujeitos. 

Cada criança passa por etapas distintas ao longo do seu desenvolvimento que servirão de base para a fase seguinte, como degraus a serem percorridos um a um, e não salteados. Jean Piaget nos diz que cada uma dessas etapas traz formas diferentes de inteligência, em busca do equilíbrio e de sua maturação. Conhecimento se faz por organização, e não por acúmulo. O mais importante disso, para nós educadores, é nunca perder a sensibilidade de perceber que cada criança traz consigo um brilho e um ritmo próprio no processo de aprendizagem. 

Não nascemos com um processo psicológico pronto de pensamento e ação. Nesse sentido, a ciência da Psicologia também se dedica a estudar a origem do conhecimento. Esse estudo tão amplo e complexo não pode – nem deve – ter um único olhar, e, por esse motivo, nós, psicólogos, consolidamos nossas reflexões na intersecção com outros saberes de diferentes áreas que somam e agregam às nossas percepções. 

Vygotsky traz que a aprendizagem se dá a partir de fatores distintos, relacionados ao homem enquanto espécie, como sujeito social e com vivências únicas. Esses fatores são denominados como: filogenético, que tem a ver com as características do homem como espécie; sociogenético, ligado ao nosso desenvolvimento como seres sociais e culturais; ontogenético, relacionado à construção da nossa própria história, e microgenético, referente às experiências únicas que temos ao longo da nossa vida. Reunindo tudo isso, somos capazes de construir uma leitura do que está à nossa volta, e cada um vê o mundo a partir de sua própria janela. 

Nesse sentido, cabe dizer que é justamente para que eu possa ter diferentes perspectivas e para ampliar o meu olhar é que eu preciso do outro. O homem cresce em um ambiente social; não somos uma ilha, tão logo nossa aprendizagem é também um processo que depende do outro, da interação. Vygotsky dizia que “através dos outros, nos tornamos nós mesmos”.

Vemos claramente no dia a dia da sala de aula como nossas crianças aprendem umas com as outras, muitas vezes, independentemente da nossa interferência. Elas se identificam entre pares e constroem seus conhecimentos com base nos vínculos estabelecidos. Porém não podemos perder de vista o quão importante é a nossa mediação para que esse conhecimento seja internalizado e organizado de forma significativa.

Na Educação, percorremos caminhos complexos. A Psicologia Educacional nos traz que necessidades educativas especiais existem não somente para aquelas crianças que apresentam algum tipo de dificuldade específica, ocasionada por algum transtorno motor ou cognitivo. Todas as crianças necessitam de um olhar sensível atento para o seu aprendizado. Elas possuem suas dificuldades próprias e não devem ser massificadas. 

Enquanto tivermos, em nossas almas e corações de educadores, a sensibilidade de olhar para cada criança como únicas, estaremos de fato contribuindo para a sua formação. Hoje percebo que nossa maior recompensa será conseguir guiá-las de tal forma que elas trilhem seus próprios caminhos. Somente atingiremos esse objetivo se, no decorrer de todo o processo, cada um dos nossos alunos sejam os verdadeiros protagonistas na relação ensino-aprendizagem. Pelo futuro deles, valerá qualquer sacrifício. 


Fonte: Revista EducarMais.