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21/07/17 16:06

EducarMais: Freud explica! A psicanálise na gestão educacional

Escolas funcionam como seres humanos, seja por às vezes serem o reflexo de seus gestores, seja por se comportarem como tais.

Em função da minha formação em Psicologia e em Psicopedagogia, tenho grande interesse por aspectos ligados à psicanálise das organizações. Por isso, recentemente, li Empresários no divã: como Freud, Jung e Lacan podem ajudar a sua empresa a deslanchar. O autor, Luiz Fernando Garcia, escreveu um livro interessante e inusitado, que, aliás, eu recomento. Tal livro mobilizou-me a produzir um texto sobre os aspectos psicológicos envolvidos na gestão educacional.

Em alguns casos, percebe-se, com clareza, que certos gestores educacionais, assim como Narciso, dedicam grande parte do tempo a contemplar suas imagens refletidas. Tal qual o mito grego, esses gestores correm o risco de definharem e morrerem encantados com seus próprios reflexos, incapazes de perceber a beleza de outros projetos e/ou instituições de ensino com as quais teriam muito a aprender. Narcisistas que são, esses diretores talvez, após a morte, virem flores (o Narciso).

É comum perceber que, em dadas instituições de ensino, há uma imensa dificuldade de lidar com conflitos. Essas escolas, e as pessoas que fazem parte delas, apresentam-se ansiosas, estressadas e, quase sempre, manifestam medo intenso e excesso de preocupação diante de problemas pequenos ou inexistentes. Tais pessoas, e possivelmente as instituições em que trabalham, desenvolvem sintomas de transtornos neuróticos.

Em certas escolas, os implicados apresentam pensamentos persecutórios no tocante a outras instituições com as quais disputam mercado e alunos. Há aquelas que discursam que tudo aquilo feito na escola é imediatamente copiado pela concorrente, como se um “espião” estivesse plantado no seu quadro funcional. Há também as que se queixam de terem alunos e professores sistematicamente assediados e, não raramente, roubados por outras. Não que eventualmente isso não possa acontecer, porém é possível que, em alguns casos, esse “sentimento de perseguição”, essa sensação de que a concorrência está sempre a postos para afanar alunos e professores, seja um sintoma paranoico.

Uma das principais características da esquizofrenia é uma partição da personalidade, como se o indivíduo não fosse um todo, mas partes ou pedaços. Isso acontece em algumas escolas que têm segmentos de ensino (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio) completamente desconectados, sem nenhuma referência de continuidade entre si. Tais escolas não têm um projeto pedagógico unificado e ainda utilizam materiais didáticos que nada têm em comum e que, além de tudo, são referenciados por linhas pedagógicas antagônicas. Seus profissionais não falam a mesma língua, e cada qual “puxa a brasa para a sua sardinha”. 

Segundo Freud, para crescer saudável, uma pessoa precisa da representação do paterno e do materno em sua existência. A função materna caracteriza, para o bebê, a possibilidade de amor e proteção constantes. A mãe, ao amamentar, embalar e cantar, deixa impressões eternas dos afetos que são transmitidos nesses momentos. O pai exerce a função de corte da simbiose mãe-bebê e, assim, possibilita a organização dos elementos que vão marcando e formando um novo sujeito. 

Em escolas que notadamente se originam na Educação Infantil, observa-se claramente a representação materna; muitas vezes, apenas esta. Já naquelas cuja origem se dá a partir de cursinhos ou Ensino Médio, quase sempre o referencial é, principalmente, o paterno, sendo a função materna muito pouco presente.

Assim como os bebês, estudantes, professores e funcionários também necessitam das duas representações. Obviamente, as escolas que possibilitam uma dessas representações de maneira muito intensa e a outra de modo débil deixam a desejar no tocante ao desenvolvimento dos alunos e de seus colaboradores.

Todas as empresas são formadas por pessoas e, assim como tais, também adoecem e carecem de tratamento e acompanhamento profissional. Quando emocionalmente abalada e psicologicamente desorganizada, nenhuma pessoa consegue crescer adequadamente. O mesmo acontece com as organizações. Sendo assim, em uma escola, é necessário dar atenção aos aspectos psicológicos da gestão educacional e, se possível, às ações de caráter preventivo capazes de promover o crescimento e o desenvolvimento de pessoas, instituições e grandes gestores. Nenhuma escola poderia prescindir de saúde emocional. Freud explica!


Fonte: Revista EducarMais.