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08/06/16 17:19

EducarMais: Fanfics – o que vem depois do fim

Os alunos do Ensino Fundamental II podem desenvolver a escrita por meio da mesma técnica narrativa utilizada nas fanfictions; basta serem incentivados.

É muito comum encontrar histórias que começam com “Era uma vez” e terminam com “E eles foram felizes para sempre: FIM”. Porém, os fãs dessas histórias passaram a questionar porque as personagens agiram daquela forma, que rumo tomou aquela personagem coadjuvante que só aparece no primeiro capítulo, além de se perguntarem: “O que eu faria nessa situação?”. 

A partir de então, novas releituras foram surgindo, e diferentemente das resenhas, que apenas mostram a impressão do leitor sobre um texto, novos enredos foram criados, podendo ser inseridos antes, durante ou mesmo depois do fim. 

O termo fanfiction, do inglês “ficção de fã”, existe desde que os primeiros ouvintes de histórias contadas em volta das fogueiras partilharam suas versões daquilo que ouviram para outras pessoas, até que, muito tempo depois, os enredos tornaram-se diversos e totalmente diferentes do original, como bem afirma aquele provérbio da cultura portuguesa: “Quem conta um conto aumenta um ponto”.

Entre os séculos XV e XVI, as peças clássicas de Shakespeare eram contadas por toda parte, ganhando todo tipo de versão. As fantásticas histórias de Conan Doyle e seu caricato Sherlock Holmes, eram abordadas em inúmeras cartas de fãs que questionavam o enredo, acrescentando fatos e compartilhando suas impressões sobre os casos. Outros autores, como Miguel de Cervantes e Jane Austen, também serviram, e ainda servem, de inspiração para os fãs, inclusive uma obra clássica de Austen, intitulada Orgulho e Preconceito, ganhou sua versão de terror chamada Orgulho e Preconceito e Zumbis, do autor Seth Grahame-Smith, que rapidamente ganhou espaço nas prateleiras de livrarias e bibliotecas, e também as telas de cinemas.

Com a internet, o movimento dos fanfics ganhou grande notoriedade, possibilitando-o sair das tradicionais cartas trocadas por correspondência e dos fanzines distribuídos nos ocasionais eventos para ir ao encontro de uma ilimitada circulação eletrônica. Os fãs da série Star Trek, por exemplo, puderam reunir-se virtualmente para compartilhar suas releituras. Logo os fãs já estavam seguindo a linha das histórias criadas por outros fãs. Tanto estas quanto outras produções, apesar de utilizarem os mesmos cenários e personagens da história original, trazem para a trama novas possibilidades de enredo. Por meio dessa atividade, os leitores têm a oportunidade de desenvolver uma escrita cada vez mais rica, incentivando também o gosto pela leitura. 

Nas escolas, o desafio maior se apresenta com os alunos do Fundamental II, e isso ocorre porque é nesse período que acontecem algumas transições no modelo de ensino. Durante as séries iniciais até o Ensino Fundamental I, os alunos são chamados a participar de atividades lúdicas como contação de histórias, teatralização, entre outras. Isso faz com que as crianças desenvolvam o lado criativo e a interação com o ambiente escolar. Do Ensino Fundamental II em diante essa abordagem é substituída por atividades mais sérias, exigentes, que chegam a ser monótonas para o estudante. Essas atividades são necessárias, mas a forma como são aplicadas precisam ser repensadas. O aluno precisa ser instigado a produzir coisas relevantes para ele, desenvolver seu potencial. A curiosidade é nata em todos os seres humanos, e se uma criança se mostra sem ânimo para produzir algo é porque ela não teve estímulos o suficiente para desenvolver seu lado criativo.

Quando o professor pede aos alunos um resumo, ele subestima a capacidade destes de pensar, pois eles sabem que podem simplesmente entregar uma cópia da internet, usar o texto da orelha do livro ou até mesmo se apoiar no “copia e cola” do colega. Mas isso não é culpa do aluno, porque os resumos são monótonos, e o texto não difere muito de um para o outro; podem mudar alguns sinônimos, mas o enredo é sempre o mesmo: começo, meio e fim.

Diferentemente, se o professor pede aos alunos para eles criarem uma história paralela aos escritos do autor, seja modificando o enredo, destacando uma personagem pouco explorada, indicando um fim alternativo, ou o que vem depois dele, dará aos alunos a ferramenta necessária para produzir um mundo de possibilidades. Dessa forma, eles terão que fazer um esforço maior para pensar e, com isso, melhorar sua percepção individual. Os alunos podem apresentar certa resistência no começo, mas as ideias são como “[...] componentes essenciais da compreensão” (INFOPÉDIA, 2003-2015), elas estimulam o cérebro, incutindo criatividade e dando-lhes ao mesmo tempo uma noção mais ampla do real. 

Um teórico indiano da área da Ciência da Informação chamado Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892- 1972) criou cinco leis que falam o seguinte: 

1. Os livros são para serem usados.
2. A cada livro, o seu leitor.
3. A cada leitor, o seu livro. 
4. Poupe o tempo do leitor. 
5. Uma biblioteca é um organismo em crescimento. 

As leis 1, 2 e 3 condizem diretamente com o incentivo à leitura. Na primeira, nós temos os livros como um meio informacional que deve ser usado para tal finalidade; se os livros ficam parados nas estantes é porque já não atendem mais a sua demanda e é preciso montar um plano de ação para modificar isso. Na segunda, indica-se que cabe aos responsáveis (bibliotecários, professores, pais) divulgarem o acervo disponível e adequado para cada faixa etária; se este se mostra desinteressante, deve ser realizada uma pesquisa que atenda aos usuários, além de se trabalhar com atividades que chamem a atenção das crianças. A terceira lei versa sobre o desenvolvimento cognitivo dos leitores e indica que cada pessoa possui gostos literários diferentes e, portanto, não devem ser tratados do mesmo jeito. 

Em uma escola, por exemplo, levar o aluno à biblioteca muitas vezes é usado como discurso nos castigos, e, quando não é dado ao aluno o direito de escolher seu livro, a leitura se torna um fardo, e toda essa série de acontecimentos culminam em uma má experiência com o ato de ler, ocasionando um bloqueio a esta prática. Como disse Monteiro Lobato (1882- 1948): “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”, e é essa falta de leitura que traz consequências negativas ao processo da escrita.

Promover a cultura das fanfictions em sala de aula vai muito além da usual leitura, pois permite um diálogo entre o autor e o leitor, abrindo um leque de oportunidades para trabalhar o letramento educacional. É necessário também dar ao aluno a liberdade para escolher histórias de personagens da mesma idade e que usem uma linguagem semelhante; isso promove uma identificação e gera simpatia e apreço pela leitura, possibilitando a criação, a pesquisa e o consumo efetivo desta manifestação artística que é a literatura.


Fonte: Revista EducarMais.