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09/10/16 10:29

EducarMais: Ética, educação e meio ambiente

Nossos alunos não devem aprender lições de ecologia, mas sim vivenciá-la. Só assim poderemos construir um futuro com pessoas éticas e preocupadas com o meio ambiente.

Ética e meio ambiente. Pareceria uma coisa muito estranha que um professor ou uma professora fizesse uma relação entre esses dois pares. Afinal de contas, dá a impressão, às vezes, que ética lida só com sociedade, lida só com pessoas, com seres humanos na relação entre nós. E quando se fala em ética e meio ambiente, há uma certa estranheza, supondo, por exemplo, que a nossa relação com o mundo, com a natureza, deveria ficar voltada apenas para o campo da Biologia. No entanto, há sim uma ligação direta entre ética e meio ambiente, e nós, educadores e educadoras, temos de lidar com isso no dia a dia, dentro da nossa sala de aula. 

Uma vez, um grande historiador britânico chamado Arnold Toynbee escreveu uma obra de História intitulada A Humanidade e a Mãe-Terra. Olhe a expressão: Mãe-Terra. Nessa obra, ele aponta uma ideia que o nosso planeta – e nós, claro, dentro dele – é uma esfera de vida e que o próprio planeta Terra seria um ser vivo. Tal como temos em nós, homens e mulheres, outros seres que em nós vivem, nós seríamos alguns dos habitantes desse ser vivo, que é o próprio planeta. 

Nós, homens e mulheres, não somos a única forma de vida. Nada nos dá legitimidade para supor que nós sejamos os proprietários da vida que neste planeta está. Ao contrário, não somos proprietários, nós somos usuários compartilhantes. É importante que as nossas alunas e os nossos alunos – e nós também – entendamos o que significa isso. Somos usuários compartilhantes. 

Nós precisamos colocar isso dentro do nosso trabalho pedagógico para que não apareça para nós uma coisa perigosa, que fratura, que quebra a relação da ética com o meio ambiente: a arrogância. Nenhum e nenhuma de nós pode ser arrogante a ponto de supor que o planeta é propriedade nossa para a gente fazer o que quer. Cada vez que a gente afeta qualquer coisa do equilíbrio da ecologia do nosso planeta, nós somos afetados. 

Afinal de contas, diriam alguns: “Nós somos livres. A gente faz o que quiser”. O que você e eu, com os teus alunos e alunas, temos de ter clareza é que somos um ser entre outros. Um ser importante, um ser com um nível de evolução bastante grande dentre as espécies. Exatamente por isso nós precisamos ter consciência do que fazemos para proteger a vida. Ora, é nessa hora que volta o tema da ética. Afinal, quando se fala em consciência, se está falando em ética. Retomemos: a ética é aquilo que orienta a tua capacidade de responder a três grandes questões: Quero? Devo? Posso?

É isso que orienta a nossa conduta. Para eu responder e agir a partir dessas perguntas, nós temos princípios, valores que nos orientam. Nesse sentido, a ética é o princípio de orientação do modo como agimos e nos conduzimos na vida. 

Ora, como é que você conversa sobre isso com o teu aluno, com a tua aluna? É só colocar coisas que estão relacionadas ao querer, ao poder e ao dever. Um exemplo concreto: fui criado no norte do Paraná, uma região bastante agrícola, com muitos pássaros. Quando eu era criança, uma das coisas que eu fazia era pegar um estilingue. Um dos exercícios de diversão era, vez ou outra, atirar em um passarinho. Qual era a finalidade? A minha diversão. Eu não fazia aquilo por necessidade, para me alimentar; era pura diversão: caçar passarinho. Hoje, quando eu vejo isso ou me lembro, fico boquiaberto e envergonhado. Imaginar que eu já fiz aquilo um dia e, mais do que isso, fui capaz de fazê-lo de forma absolutamente inútil. 

É um problema de consciência agora. Nos meus princípios, não cabe, de maneira alguma, que eu destrua alguma outra vida, a menos que isso faça parte exatamente dessa concretude de interdependência alimentar, de sobrevivência, para a produção da nossa existência coletiva. 

Ora, é um exemplo banal esse do passarinho, mas ele acontece no dia a dia. Imagine: eu resido na cidade de São Paulo. Aqui há mais de 11 milhões de pessoas. Há 5 milhões de carros nesta cidade. Quanta vez não se deseja usar o transporte coletivo e se prefere o transporte individual, aumentando a poluição na cidade? Em nome do quê? Do direito individual. “Eu faço o que quero. Eu sou livre”. Cuidado! A tua liberdade e a minha têm sempre como fronteira a proteção da vida coletiva. Nessa hora, de novo, a ética vem à tona.

Já imaginou se eu suponho que basta eu fazer, “eu sou só um”. Eu volto a esse argumento por uma razão muito séria. E o que faz o copo transbordar? A primeira gota ou a última? São todas as gotas. Qualquer gota que a gente tirar do copo, ele não transbordará. Não é a última gota que faz o copo transbordar. Daí que a relação entre ética e meio ambiente é um tema de cada indivíduo. Um aluno e uma aluna precisam ser formados nessa direção, mas, antes de mais nada, nós, professores e professoras, temos de ter uma consciência ecológica mais forte. Temos, por exemplo, de trabalhar os nossos problemas de Matemática, de Ciências, de Língua Portuguesa, e trazer o tema à tona. Não precisa existir na escola uma disciplina chamada Ecologia. Não tem necessidade, porque ecologia é um projeto mais amplo. É uma coisa para lidarmos em todas as disciplinas.

Quando eu for, por exemplo, como professor de Matemática, fazer uma proposta de um determinado exercício, em vez de dizer:  “Aqui tinham duas maçãs; elas se somam a mais três”, pegando a coisa mais básica, aquela que está no início do Ensino Fundamental, eu posso dizer “aqui havia cinco árvores, duas foram cortadas, sobraram três, qual é a consequência?” Do ponto de vista aritmético, são as três que restam. Do ponto de vista da nossa vida, o que isso significa? 

Nós temos de usar a nossa inteligência de maneira a fazer uma economia, uma capacidade de vida que seja sustentável. Sustentar significa que se possa dar condição de existência para o conjunto das coisas. Às vezes, as pessoas esquecem essa relação. 

A consciência ecológica não é simplesmente proteger o pássaro, proteger a árvore. A consciência ecológica é uma consciência ética, na qual eu tenho atitudes de não destruir, de não desmontar, de não achar que aquilo que aí está tem e precisa, e até pode ser, objeto da minha liberdade. 

A nossa tarefa em educação é formar em nós e nos nossos alunos e alunas uma consciência, a capacidade de dizer: “Olha, a vida importa demais, e não podemos ameaçá-la”. A vida que importa é toda e qualquer vida, a tua, a minha, a de todos os seres. Nesse sentido, os pequenos atos, as pequenas delinquências que a gente produz no dia a dia são muito negativas.

Por isso, é preciso discutir, ensinar, refletir e aprender também. Porque só é um bom ensinante quem for um bom aprendente. Se professores e professoras que somos não formos bons aprendentes, não conseguimos ser bons ensinantes.

Termino com uma frase de que eu gosto demais e repito sempre nas falas e em vários escritos. É de um pensador francês do século XVI chamado François Rabelais. Ele tem uma frase que é um pouco apavorante, porque é muito forte para nós, mas deixa muito claro aquilo que a gente precisa pensar quando se relaciona ética e meio ambiente, quando se relaciona aos nossos valores de conduta na vida aquilo que eu preciso discutir com as nossas comunidades educativas para proteger a nossa casa, o nosso ethos. Ele diz: “Conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam”.

Nós podemos, queremos e devemos. É nosso dever ético que se faça, de modo a não tornar a vida pequena. Para não apequenar a vida... 


Fonte: Revista EducarMais.