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18/07/17 11:35

EducarMais: Ensino Diferenciado – ser diferente é normal!

“A comunidade não é formada pela erradicação das diferenças, mas sim pela sua afirmação, com cada um de nós declarando a identidade e o legado cultural que configuram quem somos e como vivemos no mundo.” (Bell Hooks)

A heterogeneidade é uma das características mais maravilhosas do mundo em que vivemos. Cada pessoa é única e irrepetível. A idiossincrasia na sensibilidade, no olhar e na opinião é o que torna as pessoas sedutoras. A arte brilha em todo o seu esplendor pelo caráter único e irrepetível das suas manifestações. Tendemos a apreciar, e por vezes a idolatrar, pessoas que manifestam uma personalidade vincadamente diferente.

Apesar de tudo isso, e da valorização social, em abstrato, da diferença e da personalidade, há tensões profundas no sentido da massificação, da reprodução de modelos, soluções, comportamentos e receitas. A escola tem sido, ao longo de décadas, uma das principais instituições desse tipo de concepção, normalmente não declarada, e desse tipo de atuação. Tradicionalmente, a escola e os professores ensinam todos como se fossem um só, aplicando nessa instituição conceitos e práticas da produção fabril. Apesar de tantas correntes pedagógicas que, sobretudo desde os anos 50 do século XX, têm procurado alterar perspectivas, práticas e resultados da ação educacional, a escola insiste em massificar.

Uma das filosofias de atuação que mais se tem destacado é o ensino diferenciado. Na linha dos trabalhos desenvolvidos pela Fundação Bill & Melinda Gates e por outros organismos e pesquisadores, entendo ensino diferenciado como um conjunto de metodologias para acelerar a aprendizagem do aluno, configurando o ambiente de instrução – o quê, quando, como e onde se aprende – para corresponder às necessidades individuais, competências e interesses de cada aluno. É o aluno que se responsabiliza pela sua aprendizagem e desenvolve ligações pessoais profundas com colegas, professores e outros adultos. 

Como refere Hallahan (2009), para que o ensino seja diferenciado, é necessário que a escolha das técnicas de trabalho em sala de aula seja feita a partir das características do aluno, e não em função de conteúdos acadêmicos prescritos. Isso exige uma mudança de paradigma que se verifica, na prática, ser muito difícil. Retirar o currículo e o professor do epicentro da equação educacional e colocar lá o aluno é uma iniciativa na contracorrente da tradição dos sistemas educacionais, das escolas e dos próprios professores. Mas não é por ser difícil que deverá desmobilizar os envolvidos. Em educação nada é fácil. E há coisas pelas quais vale mesmo a pena lutar. O ensino diferenciado é uma delas.

Mas, na prática, como levar a cabo em uma escola, em uma sala de aula, um ensino diferenciado? Deixo aqui alguns princípios básicos que poderão inspirar aqueles que tenham a coragem de desbravar novos caminhos nesse desafio tão importante.

A princípio, trabalhe a partir de uma filosofia de atuação que explique o que pretende fazer e como vai realizar os seus intentos. Depois, explique aos seus alunos e negocie com eles os modos de operacionalizar essa filosofia de atuação. Para que eles se sintam parceiros e tenham maior probabilidade de envolvimento no cotidiano, é necessário que suas opiniões sejam consideradas desde o início. Você terá de esclarecer, escutar e incorporar perspectivas de seus alunos na sua atuação.

Quando passar à prática, indique de forma muito clara o que espera que seja feito pelos alunos. Não parta do princípio de que eles já sabem o que espera deles. Explique e repita. Há aqueles que precisam de redundância. Crie e comunique expectativas elevadas, mas realistas, quanto aos resultados que espera que eles atinjam. A tendência é para que, quando as expectativas dos professores são baixas, os alunos nivelem a sua atuação em sintonia e criem ou reforcem uma autoimagem mitigada. Lembre-se de que o sucesso será o crescimento individual de cada um dos seus alunos, a reta crescente que pode ser visualizada no percurso que cada um percorreu para chegar do ponto A ao ponto B. 

Em todas as atividades, procure inculcar nos seus alunos o sentido de realização com qualidade, investindo no processo e nos resultados o melhor dos seus saberes e das suas competências para atingirem metas das quais se orgulhem. Para ajudá-los nesse sentido, é fundamental estabelecer rotinas que organizem a ação e que transmitam maior segurança. A partir disso, explique, defina e consensualize procedimentos para iniciar e para fazer transições mais rápidas e harmoniosas entre atividades. Dessa forma, todos vocês vão aproveitar muito mais o tempo de aula para tarefas verdadeiramente educacionais, em vez de o desbaratarem a tentar organizar o trabalho e disciplinar a ação dos alunos.

Para poupar a si e aos outros, tenha paciência com a turma, com algumas atuações sem sintonia com os seus objetivos ou com alguns resultados frustrantes, apesar de todo o seu empenho. O envolvimento com o ensino diferenciado pode comparar-se muito mais a uma maratona do que a uma corrida de velocidade. Contam mais a garra, a resistência e a persistência com que laboriosa e equilibradamente se desenvolvam nos alunos competências cognitivas, emocionais e sociais, do que uma atuação pontual, por muito inspirada que ela seja.

Por fim, partilho com você alguns dos elementos estruturantes do ensino diferenciado que o ajudarão no desafio de proporcionar personalizadamente a aprendizagem de cada um dos seus alunos. O primeiro elemento é proceder ao registro sistemático do perfil de aprendizagem de cada um. Aí você elencará as competências, necessidades, motivações e objetivos de cada um deles e irá atualizando em função da dinâmica inerente aos processos de desenvolvimento e de aprendizagem. O segundo elemento tem a ver com a promoção da ideia de que cada aluno segue o seu percurso individualizado de aprendizagem e desempenho e de que isso é algo natural e desejável. O terceiro elemento corresponde à adoção de avaliação continuada, em que o aluno progride de acordo com a expertise demonstrada para resolver problemas concretos ao mobilizar os conhecimentos e as competências que adquiriu e desenvolveu durante um determinado lapso temporal. 

Finalmente, o cenário em que ocorrem esses processos é impregnado por ambientes de aprendizagem flexíveis que se organizam com plasticidade em função das aprendizagens dos alunos. Professores, recursos, espaço e tempo são organizados, distribuídos e priorizados em função da promoção de mais e melhores aprendizagens por parte de cada aluno.

Ser diferente é efetivamente normal, desejável e fundamental para uma democracia saudável e empoderadora da diversidade a serviço do fortalecimento da comunidade. Mas, se isso não for ensinado e praticado em casa e na escola, não podemos esperar que os alunos, por magia, desenvolvam e apliquem essa perspectiva nas suas vidas pessoal, social e profissional. O ensino diferenciado é uma ótima forma de inculcar essa filosofia de vida por meio de vivências gratificantes e proporcionadoras do desenvolvimento do potencial de todos e de cada um dos nossos alunos. Dessa forma, promovem-se atitudes e comportamentos de inestimável benefício individual e social que se podem sintetizar na velha e sempre atual máxima: “viva e deixe viver”.


Fonte: Revista EducarMais.