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14/07/17 16:28

EducarMais: Construindo o mundo além das palavras

O processo da escrita envolve diferentes etapas, desde a percepção do mundo pela criança, seu confronto de ideias, até sua consciência crítica acerca da realidade.

A essência pedagógica é a pluralidade. Refletir sobre a construção de qualquer aspecto do conhecimento, quer seja a linguagem, a matemática ou outra ciência, pressupõe partir da premissa de que o aprendizado de uma criança é único e singular. O exercício da docência só é possível baseado na aceitação inteira das diferenças. Cada um dos nossos alunos parte do seu lugar e percorre caminhos distintos. Contudo, eu só poderei efetivar essa encantadora teoria em minha prática se isso de fato constituir o meu coração de educador. Afinal, como nos diz Rubem Alves, só poderá plantar jardins por fora e passear por eles quem tiver jardins por dentro. 

Ao longo do desenvolvimento do letramento e da alfabetização, a criança vai testando hipóteses. É assim que aprendemos a ver o mundo: imaginamos, testamos, erramos, refazemos, comprovamos e aprendemos. Essa é a definição de autores consagrados da área acerca da Psicogênese da Língua Escrita. Nessa construção, é preciso permitir que as crianças confrontem suas próprias ideias. Além disso, escrever envolve dois processos que seguem em paralelo: o sistema formal de escrita e o funcionamento da linguagem. O primeiro refere-se aos aspectos notacionais da língua, ou seja, seus códigos de sinais. O segundo tem a ver com a finalidade da língua, seus aspectos discursivos. Para construirmos escritores competentes, precisamos estimular e encantar a criança para o exercício da escrita mesmo antes de ela já saber grafar dentro dos parâmetros formais da língua. 

A linguagem é composta pelo que Vygotsky chama de cadeia de signos. Cada letra, sílaba ou palavra remetem-se a elementos que não são somente a coisa em si. Tornando mais claro: ao lermos a palavra livro, rapidamente imaginamos um livro sem necessariamente vê-lo. Essas representações mentais são construídas a partir das nossas percepções do mundo. É exatamente por isso que o processo de escrita não pode ser pensado desassociado da leitura. É também por meio desta que nossas crianças constituem suas referências, constroem sua leitura do mundo. Como nos diz José Saramago, “sem ler ninguém escreve”. 

O papel de um bom professor na mediação da produção escrita com a criança deve começar com o questionamento sobre o tipo de escritor que se quer formar. É necessário garantir que meu aluno ganhe condições de pensar no todo do texto, do enredo à forma de estruturar os elementos no papel. Essa preocupação deve existir desde o planejamento da atividade, passando pela mediação e, sendo ainda mais forte, na correção e devolutiva para o aluno. Quando a criança conclui seu texto, eu, professor, preciso saber se ela é capaz de responder a que aquele escrito se pretende, o porquê e para quem foi feito. 

A função da leitura e da produção escrita, na verdade de toda a Educação, é eminentemente social. Somente quando um educador efetivamente olha e repara o seu aluno, percebendo-o em sua singularidade, é possível trilhar o caminho do aprendizado. O que o professor faz é mais do que ensinar, é cuidar da sociedade. A única forma de construir conhecimento com os nossos alunos é permitir que eles tentem, errem, refaçam e aprendam, porque só assim eles serão de fato capazes. 

Dessa forma, quando uma criança produz seu texto, a partir de suas próprias referências, e o entende de maneira inteira, o professor foi além da sua missão de formar escritores competentes. Se conseguirmos verdadeiramente isso, nosso fruto será construir cidadãos críticos e conscientes de suas ações e do seu poder de transformação do mundo.


Fonte: Revista EducarMais.