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16/09/16 17:23

EducarMais: “Basta saber ler” – A interpretação de textos no ENEM

A interpretação de textos pode ser usada como ferramenta que auxilia os alunos a responderem itens do ENEM de todas as áreas do conhecimento.

Em 2006, certa universidade federal que apresenta itens bastante parecidos com os do ENEM divulgou suas provas e, com elas, os comentários às questões. Para um dos itens de História, o comentário era o seguinte: “O texto dá a resposta [...]. Bastava saber ler”. Para os responsáveis por elaborar tal comentário, talvez tenha faltado um pouco de trato com os candidatos, a fim de que fosse elaborada uma resolução que, de fato, explicasse um pouco mais detalhadamente o item, em vez de, indiretamente, dizer que aquele que não apontou a resposta correta não sabe ler.

A leitura exige muito mais do que a mera decodificação das letras e palavras de um texto; ela exige o entendimento do que está escrito, não só pelos vocábulos isolados, mas também, e talvez principalmente, pelos seus contextos, sejam eles meramente textuais ou sociais, históricos, culturais etc. Um aluno que decodifica a frase “Ivo viu a uva”, mas não sabe que Ivo é um nome de pessoa ou que não tenha referências de como é uma uva, não consegue ler a sentença, embora tenha capacidade de decodificá-la.

Não se quer apontar aqui a leitura com níveis interpretativos de um profissional de Letras, com capacidade de entender diversos significados em textos literários. Expõe-se aqui a necessidade de nossos alunos que estão se preparando para o ENEM saber identificar, nos textos-base, enunciados e alternativas dos itens, o que é dado, o que é pedido e o que pode ser interpretado para, consequentemente, auxiliar a encontrar o gabarito de forma assertiva.

Os itens do ENEM têm influenciado muitas provas por todo o país. A contextualização é um aspecto que aparece em muitos itens do exame e, eventualmente, também a interdisciplinaridade. Outra característica bastante presente é o fato de, em muitos casos, ser possível responder a seus itens apenas interpretando o texto-base e/ou o enunciado. Isso faz com que o trabalho com a interpretação textual vá além do realizado pelos professores de Língua Portuguesa, pois as provas das demais áreas de conhecimento apresentam, em algum nível, a necessidade de interpretar o que está apresentado para, assim, responder acertadamente.

Observe, por exemplo, o seguinte item da prova de Ciências da Natureza da edição de 2015 do ENEM.

O ar atmosférico pode ser utilizado para armazenar o excedente de energia gerada no sistema elétrico, diminuindo seu desperdício, por meio do seguinte processo: água e gás carbônico são inicialmente removidos do ar atmosférico e a massa de ar restante é resfriada até –198 °C. Presente na proporção de 78% dessa massa de ar, o nitrogênio gasoso é liquefeito, ocupando um volume 700 vezes menor. A energia excedente do sistema elétrico é utilizada nesse processo, sendo parcialmente recuperada quando o nitrogênio líquido, exposto à temperatura ambiente, entra em ebulição e se expande, fazendo girar turbinas que convertem energia mecânica em energia elétrica. (MACHADO, R. Disponível em: www.correiobraziliense.com.br. Acesso em: 9 set. 2013. [adaptado])

No processo descrito, o excedente de energia elétrica é armazenado pela
a) expansão do nitrogênio durante a ebulição.
b) absorção de calor pelo nitrogênio durante a ebulição.
c) realização de trabalho sobre o nitrogênio durante a liquefação.
d) retirada de água e gás carbônico da atmosfera antes do resfriamento.
e) liberação de calor do nitrogênio para a vizinhança durante a liquefação.


O enunciado pergunta sobre o armazenamento do excedente de energia elétrica. Ao ler o texto, é possível perceber que o nitrogênio é o responsável pela geração de energia. Ele apresenta um estado inicial; depois, ele “é liquefeito, ocupando um volume 700 vezes menor”, para, em seguida, expandir ao estado inicial, quando é utilizado para girar as turbinas. O armazenamento da energia ocorre na segunda etapa, quando ele é liquefeito, algo dito na alternativa C. Pouco ou nenhum conhecimento de Ciências da Natureza foi necessário para resolver o item, mas uma boa interpretação faz chegar à resposta certa.

“A contextualização é um aspecto que aparece em muitos itens do exame e, eventualmente, também a interdisciplinaridade.”

Dizer que interpretar é fácil seria leviano, mas é possível. Aulas que foquem no conteúdo de cada disciplina, mas que resolvam itens interpretativos são as ideais. Com o tempo, os alunos perceberão que, em muitos casos, realmente basta saber ler, porém não é necessário que ninguém aponte isso em uma resolução.


Fonte: Revista EducarMais.