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15/06/16 16:42

EducarMais: Aulas de Língua Portuguesa – uma mutilação da consciência linguística

Precisamos eliminar o equívoco da abordagem linguística puramente gramatical das salas de aula e desenvolver habilidades para que os alunos utilizem a sua língua materna de maneira plena.

O ensino de língua materna há tempos vem ocupando o centro do palco das discussões linguísticas. Pautados na visão funcionalista da língua, alguns linguistas passaram a entendê-la como fator de interação social. Nesse viés, a língua precisa ser analisada como um organismo vivo que está à disposição dos falantes para atender às suas necessidades. Nessa visão funcionalista, não podemos enxergá-la como algo estático, parado no tempo e no espaço; ela sofreu e continua sofrendo mudanças ao longo do tempo. Algumas palavras, frases, construções sintáticas, por exemplo, não são mais utilizadas como por volta do século XII, período do surgimento do português como idioma que hoje utilizamos. Tome-se como exemplo a forma verbal “ a riba” utilizada no trecho a seguir.

“Quando Boorz partiu da abadia, uma voz lhe disse que fosse ao mar, ca Percival o atendia ali. Ele se pertiu ende, assi como o conto já há devisado. E quando chegou a riba do mar, a fremosa nave, coberta de um eixamente branco aportou, e Boorz desceu e encomendou-se a Nostro Senhor, e entrou e deixou seu cavalo fora.”  (Trecho de Demanda do Santo Graal, traduzido para o português do século XIII)

Facilmente vemos que essa forma verbal não é aceita hoje pela própria Gramática Tradicional devido à utilização do advérbio “arriba”, costumeiramente falado hoje por camadas da população. A questão é que essa gramática aceita algumas modificações e não consegue comprovar porque não aceita algumas outras mudanças que visivelmente a nossa língua já apresenta nos dias atuais. Parece não haver critérios para se admitir o que mudou e o que não mudou.

O problema está justamente no fato de que as aulas de Português continuam sendo guiadas por manuais que levam em consideração regras determinadas e utilizadas há séculos. É o caso, por exemplo, das incontáveis regras apresentadas pelas gramáticas escolares sobre a colocação dos pronomes oblíquos átonos. É comum ainda encontrarmos livros utilizados nas escolas que afirmam ser aceitável a utilização do pronome no meio do verbo formando a mesóclise. Frases como “Conformar-nos-emos em ser o país do futuro?” são apresentadas como sendo do português utilizado no Brasil. 

Agora você deve estar se perguntando: existe mesmo a possibilidade de, na Língua Portuguesa, o pronome ser colocado no meio do verbo? É compreensível que nossos alunos achem estranha tal construção. Isso acontece porque eles nunca viram e nem ouviram tal ocorrência (e acreditamos muito que eles nunca encontrarão esse tipo de construção mesmo em textos escritos em extrema formalidade) na língua que estão acostumados a utilizar desde que começaram a falar. E se não viram, nem ouviram fora da escola, só podemos concluir que tal construção não faz parte da Língua Portuguesa utilizada no Brasil.

O que acontece nas aulas de Português hoje nas escolas é que nelas são passadas fórmulas prontas e acabadas dos primórdios do Português. Precisamos parar com esse modelo de abordagem linguística e passar a enxergar a tal formação como um ato que leve nossos alunos a refletirem sobre o idioma que eles ouvem de seus familiares desde pequenos. Aliás, é aqui mesmo a gênese do problema. Os compêndios utilizados nas aulas levam em consideração a língua escrita, desconsiderando o ciclo natural da linguagem humana: primeiro aprende-se a falar e depois é que se aprende a escrever, quando há a apropriação das convenções da escrita do idioma.

Todas as vezes que se reflete sobre esse assunto, é comum ouvir críticas alegando preocupações do tipo: “Se não é para ensinar gramática, então o que vamos ensinar?”. É um absurdo acreditar que nas aulas de Língua Portuguesa só se ensina algo caso se esteja decorando regras de gramática e aplicando-as em frases soltas e isoladas. E, como sabemos, existem vários livros didáticos que analisam/ descrevem variados aspectos linguísticos: Gramática Descritiva, Gramática Tradicional, Gramática do Português Falado, entre outras. Resta-nos, então, questionar: por que, de tantas gramáticas, só se utiliza uma para a análise da língua? Como podemos perceber, a língua é um fenômeno complexo e distante da superficialidade apresentada por aquelas utilizadas nas escolas.

A questão vai bem mais além dessa superficialidade. O problema é de quem elegeu um único tipo de gramática como única verdade absoluta sobre questões da língua e esqueceu-se de outros fenômenos linguísticos apresentados por outros tipos de gramáticas, como as variações da língua ou a discrepância entre fala e escrita. 

Não é para deixarmos de ensinar gramática nas escolas. É preciso fazer os alunos entenderem a língua como um mecanismo complexo de comunicação composto de diversos fatores linguísticos. Antes de apresentarmos qualquer nuance, é necessário levar o aluno a refletir sobre sua língua e entender que não há apenas uma possibilidade de utilização dela. Fazê-lo entender que existe, por convenção, uma realização possível que ele deve utilizar em situações que exijam alto grau de formalidade, como um discurso de formatura, uma entrevista de emprego ou um seminário. Mas precisamos deixar claro que essa não é a única possibilidade que o vasto mundo da língua oferece aos seus falantes. A escola se prendeu à Gramática Tradicional como uma planta fixa na terra e se esqueceu de apresentar outras facetas. É urgente a necessidade de desprendimento dessa visão radical de abordagem sob pena de continuarmos mutilando a consciência linguística dos nossos alunos.

Como eles podem entender que a regência padrão do verbo “assistir”, quando empregado com o sentido de ver, é com a preposição “a” (Assisti ao jogo), se, costumeiramente, todo mundo utiliza esse verbo como transitivo direto? (Assisti o jogo). Ao ouvirem os professores e livros didáticos dizerem isso, eles podem pensar: “Não sabemos português”, “Como é difícil o português”, “Somos verdadeiros burros da nossa própria língua”. Vejam que baixa autoestima linguística estamos formando em nossos alunos! 

O ideal seria apresentarmos com clareza essas e outras regras e deixarmos mais claro ainda que a construção apresentada pela Gramática Tradicional não é a única adequada para todas as situações de interação linguística.

Ao insistirmos em fazer nossos alunos assimilarem uma única possibilidade para a Língua Portuguesa, não demoramos muito a nos frustrarmos. Ao saírem das escolas, eles  voltam a utilizar o idioma que ouviram naturalmente em casa pela boca de seus familiares e ainda chegam a suas casas dizendo que odeiam as aulas de gramática e que não sabem Português. Tudo isso porque não foram postos diante da sua língua de maneira a refletirem sobre as possibilidades que ela oferece. O resultado é uma verdadeira discrepância entre o que nossos alunos utilizam nas 19 horas que passam longe da escola e o que é oferecido a eles pelos compêndios gramaticais utilizados em sala de aula.

É urgente entendermos que a Gramática Tradicional surgiu como forma de auxiliar a decifração de uma língua que já não apresentava falantes nativos. No entanto, já está mais do que na hora de buscarmos outras visões linguísticas e apresentarmo-las aos nossos alunos. A Gramática Tradicional não é o único caminho que podemos percorrer aos ensinarmos nossa língua materna nas escolas. Precisamos mudar nossa atitude e inserir nas instituições uma educação linguística de reflexão sobre ela, não mais oferecendo uma única visão. Portanto, é nosso dever ofertar oportunidades para que nossos alunos adquiram autonomia para saber escolher entre as diversas possibilidades oferecidas por sua língua materna. Só assim eles encontrarão sentido nas aulas de Língua Portuguesa.


Fonte: Revista EducarMais.